A psicanálise explica nosso fascínio pelo medo


Se você é fã de livros, filmes ou games que metem medo, certamente conhece expressão “horror (ou terror) psicológico”. É uma daquelas generalizações que usamos automaticamente, muitas vezes sem pensar direito no significado: “Ah, este filme é mais de horror psicológico”; “o novo do Stephen King aposta no horror psicológico”; “a última versão de Silent Hill é totalmente voltada para o horror psicológico”.

Convido os amigos e amigas a conhecerem um pouco mais a respeito desse tema, nessa matéria assinada pelo psicólogo Eduardo V. Junqueira e pelo ficcionista de horror e mestre em literatura e crítica literária Oscar Nestarez.

Usada em contraposição a “terror” ou “horror” pura e simplesmente – sendo essa categorização mais associada a reações físicas, de repulsa, nojo ou aflição –, a expressão “horror psicológico” remete ao temor ou ao desconforto mental causados por alguma história. É menos a sanguinolência e a nojeira, e mais o climão e a ambiência; é menos o visual e mais a sugestão; enfim, é menos o nosso sensorial e mais... bem, o nosso psicológico.


Um fascínio tão antigo quanto o homem

O fato é que a expressão responde por uma imensa carga teórica, porque ela remete a uma das mais antigas correntes de estudo da mente humana: aquela que investiga nossos temores diante do estranho, do diferente, do inexplicável. Para ficarmos em apenas alguns nomes que, em menor ou maior grau, dedicaram-se ao assunto: Aristóteles, Santo Agostinho, Thomas Hobbes, Martin Heidegger e Hannah Arendt (que abordou o terror totalitário), entre vários outros.

No entanto, por se tratar de horror psicológico, vamos abordar aqui algumas teorias que a psicanálise nos traz sobre o medo. Referimo-nos, claro, ao chamado “medo estético”, proporcionado por uma criação artística, ficcional. Porque do outro tipo de medo, o que sentimos diante de uma ameaça real à nossa saúde (física ou mental), a realidade já dá conta. Sobretudo se essa realidade for apresentada pelos noticiários vespertinos de alguns canais de televisão.

A ideia é compartilhar com você, que provavelmente não resiste ao chamado das sombras, alguns pensamentos sobre o assunto. Afinal, lá se vão cem anos que psicanalistas submetem, ao microscópio da pesquisa acadêmica e clínica, o nosso fascínio pelo horror.

Jentsch e o estranho

O tema do “estranho” surgiu pela primeira vez em 1906, introduzido pelo psiquiatra alemão Ernst Jentsch (1867-1919). Por “estranho”, Jentsch entendia a nossa incerteza sobre um objeto aparentemente inanimado poder ser, de alguma forma, dotado de vida autônoma. Naquele momento, o psiquiatra referia-se à impressão passada por figuras de cera, autômatos e fantoches. Chucky ou Annabelle, alguém?

Na literatura, a figura do autômato como causador do “estranhamento” é bem mais antiga. Basta lembrarmo-nos da boneca Olímpia, pela qual Nathanael, protagonista do conto O Homem da Areia (de E.T.A. Hoffmann, publicado pela primeira vez em 1817), apaixona-se perdidamente acreditando tratar-se de uma mulher real.

A criatura de Frankenstein (1818), de Mary Shelley, também pode servir de base para o pensamento de Jentsch. E se retrocedermos ainda mais no tempo e entrarmos na esfera mítica, encontraremos a repulsiva figura do Golem, boneco feito de argila que ganha vida por meio de um ato divino.

O ensaio que dividiu as águas escuras

Alguns anos depois de Ernst Jentsch, outro alemão debruçou-se sobre o nosso fascínio pelo horror: Sigmund Freud. Em 1919, o fundador da psicanálise publicou Das Unheimliche, que até hoje mantém-se como pedra fundamental para os estudos das nossas relações com o reverso sombrio do mundo – e de nós mesmos.

"Unheimlich" é uma palavra que, infelizmente, não tem equivalente na língua portuguesa. No Brasil, o ensaio já foi traduzido como O Inquietante e O Estranho, mas sempre de forma insuficiente. Porque o termo vem de "Heim", que significa “lar” e que pode remeter a uma noção de familiaridade, de tranquilidade e satisfação íntimas; mas "Heim" também é a raiz de "Geheimnis", palavra que pode ser traduzida como “segredo”. Assim, Unheimlich pode tanto indicar algo que é “desfamiliar” e “desconhecido” quanto aquilo que deve permanecer escondido.

É a sexualidade, estúpido!

No texto, Freud analisa o medo que sentimos diante de situações aparentemente cotidianas, mas que deflagram processos mentais profundos. E, como grande parte da obra do alemão, essa reflexão tem base em elementos ligados à sexualidade.

Na visão de Freud, o medo é desencadeado pela ameaça de castração, pelos desejos recalcados, pelos processos primitivos de pensamento — tais como a onipotência e a projeção. Para ele, a realidade psíquica seria não apenas fonte de estranheza, mas causa dos principais elementos causadores de nossos temores.


Uma ruptura sempre assustadora

O fato é que, em linhas gerais, Das Unheimliche joga luz no mal-estar que experimentamos quando a fortaleza da nossa razão sofre de rachaduras. Quando o nosso pacato entendimento do dia a dia — e de nós mesmos — é confrontado pelo surgimento repentino de algo inquietante, estrangeiro, nada familiar — muitas vezes vindo das nossas profundezas.

E para expressar essa vivência do "unheimlich", Freud utiliza-se do próprio O Homem da Areia, de Hoffmann. Lembrando que, nesse conto, o autor usa vários expedientes (cartas trocadas entre personagens, delírios do protagonista, conceitos de duplo etc) para jogar o leitor em meio a situações de estranhamento.

A partir do texto, Freud discute como um escritor pode, por meio do estreitamento dos limites entre a realidade e o imaginário, provocar sensações associadas ao medo no leitor — sensações que o psicanalista vincula também ao termo “angústia” ("angst").

Ele percebe que o conto produz uma ficção que vai além do seu próprio registro, que extrapola convenções ao apresentar a ótica do personagem não como puro delírio, mas como um real possível.

O medo da nossa própria condição

Assim, Freud e muitos outros depois dele acabam refletindo sobre o procedimento que dez entre dez autores de horror utilizam em suas histórias. Do gótico O Castelo de Otranto (1764), do britânico Horace Walpole, até o contemporâneo Caixa de Pássaros(2015), do estadunidense Josh Malerman -- passando por grandes nomes como Poe, Bram Stoker, Lovecraft, Mary Shelley, Stephen King e tantos outros —, os choques entre conhecido e o desconhecido servem a mais de 250 anos de produção de histórias assustadoras.

Na verdade, são confrontos que nos acompanham desde a noite dos tempos. Pois, como também nos ensina a psicologia, o medo é a forma que encontramos para ensaiar o que fazer diante de situações angustiantes reais. Por meio da vivência do imaginário, treinamos reações para sabermos exatamente o que fazer na vida prática.

Sobretudo em relação ao “eu”: para Freud, quando nos deparamos com o monstro/escondido/estranho que há em nós, podemos lidar com a nossa agressividade e a nossa sexualidade, familiarizando-nos com esse outro obscuro de nós mesmos (até então desfamiliar).

Enfim, a psicanálise demonstra que todos nós, em algum momento, somos nossos próprios estrangeiros, nossos "unheimlich". E que a ficção de horror, ao nos colocar diante das fraturas do que é conhecido lá fora, lembra-nos de nossa própria condição aqui dentro – solitária, desamparada, angustiante. Uma lembrança que, para muitos, sempre será fascinante.

Fonte: Galileu

Quando amanhecer, você já será um de nós...


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