Navotas: o cemitério que se tornou a cidade dos pobres


Branco e reluzente, o caixão adornado de flores, balões e recordações é carregado por quatro jovens escoltados por uma lenta procissão de familiares que percorre os corredores do cemitério público de Navotas (Filipinas), esquivando-se do lixo, das crianças e dos galos que cruzam livremente a caravana fúnebre. Há alguns dias, um jazigo ocupado há cinco anos foi limpo para receber o ocupante do caixão branco. Terminado o funeral, uma camada de tijolos garantirá a estadia do finado ao menos pelos próximos cinco anos.

Evento de rotina, a procissão é seguida pelos olhares de dezenas de crianças que têm nessa necrópole seu bairro. Aqui vivem seus pais e avós há mais de trinta anos, literalmente sobre as covas ou jazigos do cemitério banhado pela baía de Manila.

"Os visitantes e moradores têm uma boa relação. Eles só querem que as tumbas sejam respeitadas e que ninguém as use como banheiro", conta um dos coveiros de Bagong Silang, assembléia do bairro que ocupa o cemitério.


Em 2007 a Humanidade chegou em um ponto decisivo: mais da metade dos seres humanos passaram a viver nas cidades. Um processo irreversível que incorpora diariamente às cidades 228 mil pessoas. Um processo desigual entre países desenvolvidos e o hemisfério sul do globo: enquanto os EUA e a Europa estagnam demograficamente, Tóquio alcança a cifra de 37 milhões de habitantes e Seul e Xangai passam os 25 milhões.

A avalanche demográfica se concentra na Ásia, e a metrópole de Manila (Filipinas) - uma conurbação de dezesseis cidades - já apresenta 21 milhões de habitantes. Tanto a imigração de camponeses para as cidades como a expulsão das populações mais pobres do centro para as periferias está transformando as metrópoles, levando algumas comunidades a tomar medidas drásticas, como viver em um cemitério, por exemplo.

O cemitério público de Navotas - uma área costeira dentro desse quebra-cabeças urbano conhecido como Metro Manila ou Grande Manila - está recebendo comunidades muito pobres que vêem no cemitério todo um ecossistema que lhes permite superar parcialmente a pobreza, a desigualdade econômica e as ínfimas possibilidades de adquirir uma casa própria em um país que alcançou os 100 milhões de habitantes em 2014.


Dirigido por Zena Merton, o curta-metragem Bagong Silang (2011) (segue um trecho abaixo) mergulha na vida diária desta comunidade composta atualmente por 350 famílias que ocupam os corredores do cemitério, a meio caminho entre a periferia da metrópole filipina e a costa, onde os habitantes mais antigos construíram lentamente seus abrigos sobre palafitas para se esquivar do lixo jogado no canal onde crianças brincam para passar o tempo enquanto seus pais trabalham no que podem.


"As casas foram construídas principalmente com papelão, as paredes são de sacolas plásticas. Se você tocar a parede, tudo vem a baixo", comenta um dos entrevistados.


A pesca, o comércio informal e a limpeza dos jazigos e lixeiras são as principais ocupações nessa comunidade. Por exemplo, por 70 pesos filipinos (US$ 1,56), os coveiros limpam as tumbas e as fecham com tijolos para os novos ocupantes. Mesas de sinuca improvisadas compartilham o espaço com as covas e tumbas enquanto velhas cabines de fliperama entretêm as centenas de crianças no país com a terceira maior taxa de natalidade da Ásia: 25 nascimentos a cada mil habitantes, o dobro do Uruguai e o triplo da Alemanha.


"Não posso dizer com certeza o que acontecerá com Bagong Silang em dez anos", diz um morador. "Só espero que para a futura geração chegue um momento em que possam ter uma melhor qualidade de vida."
BY: Elson Antonio Gomes
Fonte: Arch Daily

Quando amanhecer, você já será um de nós...


CONFIRA OUTRAS POSTAGENS DO BLOG NOITE SINISTRA



Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Anúncio escondido no site da Apple revela oportunidade de emprego

Cernunnos

John Dee: O adivinho da família real britânica